O Homem Virtual e a Ética Prof. Milton Ferreira de Oliveira
O homem sempre sofreu influência de sua época, dos valores e costumes vigentes, aliados às forças físicas provenientes do seu espaço geográfico. Hoje, como nunca, é obrigado a interagir com uma sociedade em constante mutação. As mudanças são a regra e se verificam com a velocidade da luz. Com a diminuição do tamanho do Estado, o homem agrega-se à empresa, principalmente à pertencente à atividade privada. Dela espera vir o mínimo suficiente para manutenção de uma vida, sem luxo, mas digna. O homem incorpora a personalidade e a filosofia da empresa. Mudar, inovar, arriscar são ações preponderantes nesta realidade atual.
A empresa enfrenta concorrências, dificuldades. Para competir em igualdade, num mercado cada vez mais difícil, transforma-se em empresa digital. Usar a tecnologia digital representa um diferencial vantajoso e competitivo. Passar da era dos átomos para a dos chips é imprescindível. Ser digital torna-se imperativo no mundo dos negócios. Integrar-se à grande teia mundial digital significa permanência da empresa no mercado.
"Em três ou quatro anos a Internet será um utilitário igual à televisão", prevê Jean-Paul Jacob, citado por Você s.a./Julho 1999. Tudo se negocia pela Internet, desde o primeiro contato até o acordo comercial propriamente dito. Através da web tomar-se-ão decisões políticas, sociais e econômicas que influenciarão profundamente o futuro de novas gerações.
A globalização trouxe consigo uma nova realidade. O homem passou a sofrer influências diretas e maciças de todas as regiões da Terra, concomitantemente! É obrigado a coexistir com grandiosa diversidade de valores. Tudo isto acontece, em um piscar de olhos.
A quarta onda, segundo o pensador e futurólogo Alvin Toffler, caracterizar-se-á pelo fenomenal ganho de energia pela espécie humana. A robótica revolucionará definitivamente a medicina. Na prática médica, robôs inimaginavelmente pequenos, introduzidos na corrente sangüínea humana, realizarão, a distância, cirurgias até então presentes somente nos filmes de ficção científica. Operações cirúrgicas serão monitorizadas através das grandes redes digitais entre pontos distantes do globo. Pesquisas científicas concluirão estudos que levarão à cura definitiva de afecções graves que ora são responsáveis por uma gama de óbitos humanos. Tudo isto resultará, indubitavelmente, no aumento substancial da vida média do homem. A partir de 2020 a expectativa de vida do homem será de 120 anos. A biotecnologia alcançará níveis de abundâncias de calorias alimentares. O superávit energético alimentício será fator importante para o equilíbrio social das comunidades terrestres, enquanto os supercondutores viabilizarão as velocidades vertiginosas necessárias às comunicações.
O ganho energético pelo homem o remetará a uma nova era - a era do ócio. Aqui o homem procurará o lazer e o entretenimento. A disponibilidade de tempo o transformará num pensador em potencial. Dependendo da sua formação moral, dos seus princípios éticos e do uso da razão, desenvolverá ações em benefício da humanidade.
A empresa digital origina o homem digital. Este, como o bit, não ocupa lugar nem tempo. Está em todo lugar e em lugar nenhum. Na web não há ambiente físico. Ela é uma rede, nenhum lugar em particular. O homem digital, simbolicamente, poderá ter sua cabeça no Brasil, seus braços na Argentina e Estados Unidos, seu tronco na Europa e seus membros inferiores na Ásia e África. No uso da Internet, o indivíduo adquire identidade simbólica. Num mesmo instante, encontrar-se-á em várias partes do globo terrestre. Cria-se então, o homem virtual!
E agora? O destino da humanidade, no próximo século, será selado pelas ações deste homem. Apropriadamente, indaga-se sobre seu mundo de valores. Sabe-se, através de pesquisas científicas já desenvolvidas, que a tecnologia da Internet está mudando profundamente o comportamento humano. Redefine a maneira como o homem virtual se comunica em sociedade, o que ele sabe, o que ele é. Então, como a moral, a ética e a razão deste homem serão afetadas pelo turbilhão de informações que chegam, modificam-se, inovam-se, envolvem o homem e desaparecem com incrível rapidez? Eis o grande questionamento.
As iniciativas advindas deste homem fragilizado pela necessidade imperiosa da inovação contínua, fragmentado pelas dúvidas atrozes em função de um futuro incerto, serão recebidas pela sociedade sempre com reservas e dúvidas. Uma sociedade que se conecta sem se tocar descobre formas de até ser mais produtiva, entretanto sente a inquietação com o universo novo.
Interroga-se. O homem virtual estará completamente consciente da necessidade urgente da distribuição equânime das riquezas, da valorização inquestionável da espécie humana na sua perpetuação sã e equilibrada, na ação permanente com o fim de evitar que a ciência continue a desenvolver-se cegamente, originando instrumentos tanto de criação quanto de destruição?
O homem virtual viverá sob o peso avassalador dessa violenta e turbulenta mudança dos dias atuais e futuros. A dinâmica da sociedade virtual continua sua marcha, mudando cabeças, reconstruindo novas teorias, novos paradigmas, revolucionando a economia. O homem, neste contexto, conseguirá como Max Weber - o pensador do século - conviver com as incompletudes, com os limites do conhecimento, pensando e criticando a razão, ora por abafar as emoções, os sentimentos, a instintividade, os valores, ora por se tornar instrumento de opressão política, evitando assim a destruição sistemática de todos os pontos de vista valorativos?
A Internet transforma-se para o homem virtual em sua pátria virtual. E, neste diapasão, a força da web é descomunal, chegando ao ponto de definir valores (novo conceito do bem e do mal?). Por outro lado, corre-se o risco de que o homem virtual com a web perca o controle, entre em estado anárquico onde cada um e cada qual coloca suas "verdades" e passa a influenciar ideologicamente sobre muitos (caos valorativo?).
Entretanto, o próximo século, certamente será também conhecido como a era da emoção. Aí reside a esperança! A razão, como instrumento capaz de desenvolver a tecnologia e a ciência, é impotente na solução dos problemas por elas desencadeados. Habitamos um mundo onde as maravilhas nunca imaginadas e provenientes da tecnologia entrelaçam-se com os horrores da miséria absoluta em que vive grande parte da humanidade.
No momento atual, experimentamos uma inversão de valores morais que são os fundamentos da ética. Todavia a emoção diferentemente da razão certamente apontará soluções. Recolocará o homem no epicentro da problemática dos valores, e a ciência e a tecnologia serão aliados e poderosos instrumentos na efetiva ação cidadã, minimizando os problemas resultantes da pobreza material e espiritual. Com o uso da emoção, da afetividade é que atingiremos a valorização plena e definitiva do alter*. Relação harmoniosa entre os indivíduos será a conseqüência imediata. Na transcendência humana, na busca do "mundo ideal" (mundo virtual?), a tecnologia e a ciência existirão e coabitarão com o objetivo tácito de viver pelos homens, pelas vidas humanas, pela felicidade do homem...