"MIA" - Maridos das Internautas Anônimos Desconheço a autoria
Sempre incentivei minha esposa, como todos, a entrarem na “era do computador”.
Ela resistiu muito.
Computador era bicho feio, perigoso, monstruoso.
Mas acabou aceitando.
No início foi ótimo.
Até que um dia abençoado, ela começou aperfeiçoar-se, fazer cursos, entusiasmar-se cada vez mais, equipar melhor a máquina, multimídia, etc.
Em seguida veio a conexão à Internet.
Aí começou a preocupação com a conta telefônica.
Piorou com as salas de bate-papo.
A maioria em vão, diga-se de passagem, para jogar conversa fora, mas fora mesmo.
Comecei a ser um ser estranho, pois não era virtual.
Para diminuir a conta do telefone, veio a solução como faziam muitos outros: conectar sábados, após às 14 horas, domingos e feriados. Até aí tudo bem.
O duro foi quando não podia mais ficar a semana “toda” sem falar com os “maiores” amigos.
Solução: conexão após às 24 horas.
Passei a dormir tarde e depois sozinho.
Felizmente para mim,
as salas de bate-papo começaram a cansar, encher o “saco” mesmo e ela foi se afastando, até desistir delas.
Evoluiu, descobriu, aprendeu e começou com o “ICQ”, o “ODIGO” e o “COMVOCÊ”.
O papo foi limitado aos amigos mais chegados.
Pensei: “agora vai diminuir o tempo de conexão, papo com menos gente”.
Puro engano.
O menor número nesse caso, é inversamente proporcional ao tempo.
É até lógico, conclui.
Com amigos se conversa mais.
Agüenta... Como fazer?
Ouvimos sobre a existência de conexões com taxa mensal fixa, que permitem conexão 24 horas por dia.
Pelo menos podemos saber o valor da conta antecipadamente.
Engano.
Até hoje estamos esperando as tais chegarem à nossa cidade
mas tenho esperança que chegarão antes de falirmos.
Enquanto tentamos baixar a conta, continuamos, eu e todos os maridos de esponautas (esposas internautas), tentando comunicarmo-nos com elas, sem estarmos conectados à internet e em nada mais...
Eu já consigo algumas respostas pois quando tento falar com ela, ouço, depois de algum tempo, sem me olhar e nem me dar atenção: “péra um pouco”.
Fico feliz, pelo menos é uma resposta, até com algum conteúdo.
Antes era “hum hum”, que servia para qualquer pergunta.
Depois de tanto eu imitá-la e criticá-la, mudou para “péra”.
Agora pelo menos tenho resposta mais convincente.
O tal do “péra um pouco”, mesmo sendo resposta padronizada para qualquer pergunta, dá uma brecha para minha imaginação.
Às vezes sinto um “pééééra” romântico, outras vezes, o “um pooouco” até sensual.
Fico pensando qual será a próxima maneira de responder.
Talvez “à mineira”, o “sei não”, ou então “à baiana”, o “ééééé”.
Bom, na verdade estou exagerando pois já evoluímos nos diálogos.
Conseguimos conversar como se estivéssemos no ICQ: ela está; eu, nem no computador.
Então pergunto algo, tipo, você vai jantar?
Depois de dois minutos, mais ou menos, ela responde: vou.
Mas é um vou com todas as letras.
Aí faço a seguinte: quando?
Depois de certo silêncio: já.
É só esperar o já acontecer (jantando sozinho de preferência).
Tentei descobrir qual o link que deveria clicar, para ela me aparecer inteira, ao vivo,mas não consegui; ninguém soube me ajudar.
Foi então que pensei nos outros maridos de esponautas, e imaginei que poderiam saber como lidar com suas esposas, já que provavelmente teriam passado o que eu estava passando.
Surgiu a idéia genial: reunir esses maridos.
Estou criando a “MIA” Maridos das Internautas Anônimos.
Uma associação sem fins lucrativos com objetivos voltados a ajudar e prestar esclarecimentos aos maridos quanto a problemas advindos da “era do computador de esposas”, tais como: financeiros, emocionais, psicológicos e eventualmente psiquiátricos.
Os maridos que se interessarem devem clicar no link com o e-mail da minha esposa e preencher a ficha.
Não adianta mandar e-mail para mim pois fico tanto tempo sem vê-los, que sempre os perco por cancelamento do provedor.
É que nunca sobra uma horinha vaga (ou minutos) no computador.
O mais difícil, na organização da “MIA”, está sendo arranjar um meio se nos reunirmos, uma vez que já existem maridos de todas as partes do Brasil, e até alguns espalhados pelo mundo, interessados em participar.
Estou com um péssimo presságio que acabaremos nos reunindo via internet, pelo ICQ, ODIGO, COMVOCÊ, etc.