JOÃO, O FORMATADOR DE EMAILS Maria Teresa Albani (Maytê)
(qualquer semelhança com alguém que você conheça, NÃO é coincidência.)
São 6h30 da manhã. João acorda assustado, com a sensação que, por pouco, não perde algo importante. Levanta e corre em direção à cozinha, para o primeiro café, o primeiro cigarro e, enquanto a água ferve, ele liga o computador. Claro, era para isto que João havia colocado o despertador para às 6h00, mas o sono o fizera dormir novamente. Afinal, passara a noite acordado, aprendendo algo muito importante.
A água ferve, João faz uma xícara de café e vai tomá-lo em frente ao micro, enquanto espera baixarem seus e-mails. E são em grande número, pois João se inscreveu em dezenas de sites, a fim de receber, em primeira mão, as novidades que tanto alegria lhe trazem.
João sempre foi um solitário, até o advento da Internet, quando, escondido atrás de uma tela que camufla sua timidez, adquiriu outra personalidade e fez muitos amigos. Sempre disposto a ajudar quem dele precisasse, João foi se tornando bem-quisto, e a cada dia que passa aumenta a lista de "amigos", a quem, sistematicamente, envia inúmeros e-mails.
João é doido por e-mails. Dia desses Letícia, uma das amigas que surgiu na sua lista de endereços, enviou-lhe um email coletivo com ... imaginem! nada menos que uns 300 endereços novos, que João incluiu em seu próprio catálogo, a fim de que também recebam suas novidades.
João acha a coisa mais normal do mundo enviar e-mails a quem não conhece, e sequer se preocupa se isto é correto ou não. Vez por outra alguém reclama, sim, mas João não se abala, pois sabe que o programa de correio tem uma função que nos impede de receber aquilo que não nos interessa. E, por isto mesmo, ele não deleta ninguém; os outros que o bloqueiem, se quiserem. Afinal, os e-mails que ele manda são extremamente importantes, não são? Quem é sempre o primeiro a repassar aviso de novo vírus? Ou encabeçar correntes? E quando a Ericsson anunciou que distribuiria celulares a quem gerasse o maior número de e-mails, quem saiu na frente, distribuindo a novidade? Ele, é claro. E, por este motivo, cada vez que mais um amigo virtual lhe envia um daqueles e-mails cheinhos de endereços expostos, João se apropria deles.
Verdade seja dita, João é esforçado. Ou, como se diz na gíria, um furão. Nada sabe de computação, tudo que faz é por tentativa, com mais erros que acertos, mas ele é persistente; vai apanhando aqui, escutando ali, fuçando acolá e, no fim, acaba fazendo algumas coisas "bem bonitas".
João aprendeu rapidinho a usar o botão direito do mouse para copiar imagens e textos inteiros. Às vezes consegue até copiar mid, quando tem aquela caixinha de música na página; mas tem um pessoal esganado nesses sites, é o que ele pensa. Volta e meia fica um tempão apertando o botão direito, pra depois descobrir que tem trava contra cópia, isto quando não se depara com aqueles avisos horrorosos que os cara-de-pau dos donos dos sites colocam, dizendo que não é possível copiar. Oras, não é para copiar... Pois o que está na Internet não tem dono, é o ele sempre diz...
Enquanto os e-mails vão baixando, João se anima. Vai ter muito trabalho pela frente, pois é quarta-feira, e a maioria dos sites tem páginas novas. E é por elas que João suspira antes de deitar, e volta ao suspirar quando acorda. As páginas. Lindas! Coloridas! Cheias de imagens e sons, e coisas escritas que ele não lê direito, mas sabe que agradam seus amigos. Aprendeu até os nomes dos poetas e escritores que são mais aplaudidos, e vai conferindo página por página, em busca deles.
Mas a grande paixão de João é pelas imagens. Que nem sempre podem ser aproveitadas - esse povo tem mania de assiná-las, critica ele - e imagem com nome ele não pode usar, ficaria desmoralizado perante os amigos se usasse qualquer coisa que tenha outro nome que não o seu.
Agora isto vai acabar... Pois ontem mesmo aprendeu a mexer num programa que lhe abre as portas para a facilidade, e lhe assegura um sucesso maior junto ao público de suas produções: ele sabe cortar imagens. Oh, felicidade! Nada mais o segura! E, pensando nisto, clica no primeiro link de um dos sites que lhe enviou e-mail, e começa sua aventura.
Ali está um texto bonito, nem comprido nem curto, bem do tamanho que seus amigos gostam, e possível de copiar. Ele seleciona o título, copia, cola no word, ignora o nome do autor, copia o texto, cola novamente, e salva na pasta "textos tamanho bom"! Mas como não gostou da imagem, clica em outro link, em mais um, até que encontra algo que lhe agrada - bloqueado, droga!, e assim vai, de link em link, até chegar à imagem disponível para cópia que o agrada. Sabendo-se capaz de enfrentar o desafio - a imagem em questão está assinada, João a salva numa abarrotada pasta que cultiva com tanto carinho.
Alguns saques - ops! sites depois, João se dá por satisfeito, e fecha o programa de correio para melhor se concentrar na tarefa que o aguarda.
Abrindo o programa de imagens que ganhou, João escolhe uma gravura bonita, e se prepara, triunfante, para o grande ato: tirar o nome de quem a assina. E sem nenhuma senso de estética - o que ignora por completo, sem nenhum pudor, e com total desconhecimento do que diz a Lei dos Direitos Autorais, João corta a imagem pela metade, eliminando a assinatura do autor, e ela se torna sua, completamente sua, e para fazer dela o que quiser. Assim, sucessivamente, qual criança fazendo exercício escolar, João vai destruindo, uma a uma, as imagens que custaram horas e horas de trabalho a quem as produziu.
Quando finalmente cansa de brincar de cortar imagens, João dá uma pausa para outro café e suspira, feliz! Deu certo, bem que o amigo que lhe dera o programa havia dito que era fácil de usar. Nossa, se soubesse disto teria começado há mais tempo, conjectura com seus botões, porque esse negócio de não poder salvar imagem com assinatura o andava incomodando um bocado.
Pronto para a tarefa seguinte, ele procura pelo texto que havia salvo, aquele nem comprido nem curto, e de autoria daquela escritora que todos gostam, coloca um fundo amarelo canário, uma das imagens que adulterou no "transformador de imagens", muda a cor da fonte para vermelho vivo, desalinha o texto, insere um som maneiro, respira fundo e, onde antes havia a assinatura da autora, João deixa sua própria marca, e escreve: Com carinho do João.
E então, travestido de escritor e designer, João envia seu e-mail, satisfeito por saber que o mesmo há de ser lido por muitas pessoas que o repassarão também. E aí, momentaneamente, se entristece, lembrando que de cada duas pessoas que o receberem, uma há de assinar como seu o trabalho que ele levou tanto tempo para fazer (e, a estas alturas, nem lembra que foi ele mesmo quem deu início ao processo de adulteração de imagem e texto).
Mas, no país sem leis nem caciques chamado Internet, copiar e assumir como seu o que foi feito pelos outros é a prática mais comum. Pois foi aqui mesmo, neste paraíso de impunidade, que surgiu o maior autor dos últimos tempos: o AUTOR DESCONHECIDO.
Nada disto, entretanto, diz respeito ou interessa a João. Ele sabe apenas que instituiu a si mesmo nobre missão, e que há de cumpri-la, custe o que custar.